23.2.09

Hoje tem felicidade

“A Lima está cara, né?”, “Mãe, leva jabuticaba?”, “Aquela merluza no capricho”, “Vó, me dá um pastel?”, “Pai, ali tem couve”, “Daquela barraca é gorduroso”, “Nossa, nêspera!”, “Preciso de uma bolsa menor”, “Que calor”, “Vamos à próxima?”.
Andou por toda a feira cambaleando. As traseiras e dianteiras não se entendiam e os olhos viam demais: pessoas dispostas a ajudá-lo, banquetes a sua espera e liberdade para locomover-se. Mentira. Nem o ser mais inocente veria com esses olhos e alimentaria esperanças tão distintas do momento em que realmente vivia. Ele apenas pensava que haveria algum de alguma coisa por onde procurava. Nada. Não havia nada.
O ser que descrevo, pelo contrário do que pode ter pensado, não é humano. É um cão. Não merece ser chamado assim, tamanha mediocridade que lhe é natural. É um cachorro. Desses que comumente vimos em feiras. Mais magro do que os que correm por ela toda, mais fraco do que os que latem pedindo comida, mais vivo do que os que já estão mortos e tão zonzo quanto um ser - humano zonzo.
Ao contraste de toda a algazarra que é uma feira; toda a gritaria e balançar de sacolas, arrastar de carrinhos, nada, nem um pingo de palavra era direcionado à nossa personagem. Uns passavam com os sapatos para lá, outros com as sacolas para cá e chutavam-no, batiam-no, empurravam-no. Era rotineiro que sua presença não fosse notada, haja vista que cada qual tem suas preocupações, têm que chegar em casa para o almoço... O que será da vida desse sarnento quando chegar ao fim? Ao fim da vida, morte. A qual ele tanto espera. Mas e a feira? Provavelmente nada mude ao fim dela.
Achou num lixo meio pastel. Agarrou com alguns dos dentes que ainda lhe restavam e tomou rumo. No percurso, conforme levava as sacudidelas e se balançava todo a fim de conseguir equilíbrio, metade da metade que achou, tinha-se esfarelado. Um cão aproximou-se do cachorro, encarou-o e abocanhou-o no pescoço. Com o golpe, deixara cair o tesouro que foi na íntegra levado pelo cão.
Agora, além de mais uma ferida, não tinha o único alimento que tanto custou a achar. Andou um pouco mais, farejou alguns cestos, olhou em torno de si. Papel, plástico, apenas. Na tenda das carnes, achou uma embalagem cheia de sangue. Um prato cheio. Caminhou, lambeu, lambeu, lambeu. Não parecia suficiente. Estava fraco. Parou atrás da barraca onde havia se instalado, deitou da forma menos desconfortável e chorou. Não alto. Chorou por dentro. Seus órgãos choravam, sua pelagem chorava. As unhas, orelhas, boca, fuço, tudo doía. Se alguém reparasse bem, veria lágrimas saindo do cachorro. Mas quem repararia?
Abaixou a cabeça, mesmo com o pescoço ferido, e morreu. Morreu agora, no corpo, pois há muito estava morto na alma. Nada poderia fazer para que sua vida tivesse sido diferente. A luz que cobria seu pensamento era a mais ofuscante que seus olhos, não lúcidos, até então tinham visto. Essa, não doía. Pelo contrário, deixava-o em paz. Seu corpo estava satisfeito, não pedia alimento algum; as traseiras e dianteiras agora podiam descansar. Não pôde se dizer um cão, mas agora, era um cachorro sereno. Enfim havia encontrado a felicidade.

Um comentário:

Bruno Molinero disse...

:D
Parabéns, shooshoo!