Molhou os lábios vagarosamente no líquido escuro, enquanto tintilava as unhas presmaltadas na caneca. Estava frio. Lá fora, um dia como qualquer outro; uma menina de patinete, namorados de mãos dadas, rosas desabrochando, enfim, o calor da vida.
A substância gélida percorria sua garganta, infestava seus tubos dum cinza negro e morria, enquanto seus dentes amarelados – sol artificial de janelas empoeiradas – iluminavam o cinza interior. Cá dentro, a mesmice. Poeira hipócrita envolta de vidros.
Peixe fétido em aquário.
Levantou de sua mesa, cerrou os olhos e pousou a caneca sobre uns papéis quaisquer, agora manchados de morte.
Diluído pelo líquido amargo glacial, o nada. Cá dentro, nada.
Lá fora, nadou.
Um comentário:
Digamos que foi um dia empoeirado, não?
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