27.12.07

Natal

Nascido por um milagre, teve pai marceneiro que o criou como filho.


Pinocchio.

19.12.07

Depoimentos

Ouvi um barulho do lado de fora, no hall. O olho mágico havia sido colocado há pouco e achava aquilo o máximo. Ao espiar, deparei com uma linda mulher. Até pensei que deveria instalar um "corpo mágico" de forma que eu visse a escultura completa.
Evidente que aquela cena seria mais sublime se a Linda não estivesse dilacerando o próprio nariz. Sim, um dedo insaciável.
Finalmente bateu na porta e enrolei um pouco para abrir.
- Sílvia, que surpresa!
E ao olhar para baixo, vi uma caquinha na unha de seu dedão do pé.

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Ir até lá é uma tortura. Além de não poder me entregar para aquele 'pão' que é o Jorge, a mãe dele me entope de salgadinhos e doces com maracujá. Detalhe: detesto maracujá.
Cheguei no hall e demorei até bater. Só um pouco também, foi o tempo de arrumar o tênis, amarrar o cabelo e tocar.
- Sílvia! Que bela surpresa!
Aquele gato me mediu da cabeça aos pés, como se me comesse com o olhar.

15.12.07

Melancia

-Querida, te amo mais que tudo...
mas às seis da manhã é sacanagem!

13.12.07

Clínica

A sua indiferença me consome.
O estado em que me encontro
É puro e desesperado amor.
E onde ele se reflete?
No cimento corrido da Avenida.

Meu peito se contrai
Com a conta que me dou
De que perco seu amor
Lentamente como o soro
E choro.

12.12.07

Sentimento do mundo

Levanto os olhos.
- Ora, por que choras?

8.12.07

Piscis

Molhou os lábios vagarosamente no líquido escuro, enquanto tintilava as unhas presmaltadas na caneca. Estava frio. Lá fora, um dia como qualquer outro; uma menina de patinete, namorados de mãos dadas, rosas desabrochando, enfim, o calor da vida.
A substância gélida percorria sua garganta, infestava seus tubos dum cinza negro e morria, enquanto seus dentes amarelados – sol artificial de janelas empoeiradas – iluminavam o cinza interior. Cá dentro, a mesmice. Poeira hipócrita envolta de vidros.
Peixe fétido em aquário.
Levantou de sua mesa, cerrou os olhos e pousou a caneca sobre uns papéis quaisquer, agora manchados de morte.
Diluído pelo líquido amargo glacial, o nada. Cá dentro, nada.

Lá fora, nadou.

Póesia

Aspirador de

Aspirante de

Aspirante correo.

7.12.07

Comunicação pós-moderna

arfo.........hiato
respiro.....hífen
discurso...vírgula

amo, ponto.

comunicação, moderna interrogação.



6.12.07

Em 24 horas, as sensações mais di[i!]stintas habitaram meu corpo e minha mente.
No início era o refluxo. Depois novas agonias vieram para completar a garota triste: abdome, cabeça, coração. A primeira pela ordem natural das coisas, a segunda como conseqüência da ordem e o último pela saudade; pela falta; pela solidão. Mini-surtos noturnos tranqüilizaram meu ser, mas não a tal da ordem. Madrugada produtiva onde o sono não teve [e nem quis ter] espaço. Virei uma verdadeira 'crítica [mais que o normal] televisiva', até que essa caixinha que não se cala um minuto sequer, deu-me um 'click' e mostrou-me que deveria agir.
"Uma estranha com meu filho" era o nome do filme onde a importante música era trilha. Reviravolta e repetida decisão [e ação] de tomar remédio. Madrugadas são muito produtivas e desabafei; joguei todas as minhas ‘neuras’ nas palavras; na escrita.
No dia seguinte estava bem, apesar da olheira. Transformei-me, terminando pelo cabelo. Apesar daquela porcaria de ordem que quer novamente ser citada, até passei rímel [onde lágrimas, literalmente, não são bem-vindas] e parti para "los ochenta años del Maxi". Uma conclusão tirei da noite: se tem quem beba, poupe o esôfago. Eu ri [muito] da mesma forma.
Mal sabia que o dia seguinte, mesmo sendo quinta-feira-terapia, viria com a corda [toda], com o machado [quem dera fosse o de Assis], com a descompensação; rompimento total do equilíbrio dos mecanismos reguladores. Cancelamento de compromissos, devolução das proteínas e carboidratos adquiridos [eca], um verdadeiro Rio Nilo deixou meu corpo. A União inteira tentou me acalmar, com a ajuda da mana, mas nem a unha florida sobrou.
Não era a mesma de anteontem, não mesmo, eu sei disso! A forma de se desesperar era outra, a forma de resolver era a outra, a fraqueza, a voz, o tom, o medo eram outros. Dessa vez não havia solidão e o amor escorria pelos meus poros. Apesar de me irritar com certos hábitos que não podem nunca ser mudados ou sair um diazinho sequer da rotina; apesar de entristecer por escolher a companhia e minha companhia preferir o sono; apesar de receber palavrões e palavras ofensivas no momento em que mais precisava que ele me tranqüilizasse; apesar de não querer nem atender aos chamados sabendo que viriam mais rios escoando e não paz, o amor era enorme. O amor É enorme e de uma forma jamais sentida: menos dependência e mais vontade.
Não faltaram [ou, pelo menos, eu não senti] pessoas que respirassem comigo para que meu coração voltasse aos batimentos regulares.
O Sono saiu de suas férias e visitou-me à tarde, mas, logo o ciumento do Refluxo percebeu sua volta e o expulsou para voltar sabeládeusquando!
Depois de espremer essa espinha aqui, não consigo me situar. Acho que há uma mistura entre o medo de uma possível volta do mega-surto e um querer de mudança ideológica, eu diria.
O grande problema está na introdução de vontades, sentimentos e desejos alheios que eu tenho como sendo meus também. E não são. Aqui que entra o resgate de minha ideologia. São as necessidades do meu ser e isso tem que valer para alguma coisa. Fazer valer para mim e mostrar aos outros que gostaria de alguma consideração, haja vista que a tenho a eles.

O Refluxo tem personalidade forte, mas minha vontade é que as Ânsias e as Angústias tenham ido embora com aquele líquido repugnante da espinha.